Estigma e preconceito
A impressão de Milene encontra eco em uma parcela da sociedade –composta em boa parte por feministas– que enxerga nesse tipo de arranjo familiar uma espécie de retrocesso na evolução feminina. E em um momento da humanidade em que as mulheres, pelo menos boa parte das ocidentais, é livre, até mesmo para ocupar o cargo de presidente de um país. Para a psicóloga Cecília Russo Troiano, autora do livro "Vida de Equilibrista – Dores e Delícias da Mãe que Trabalha" (Ed. Évora), existe um enorme preconceito em relação às novas donas de casa.
"Há uma espécie de patrulha social que considera a mãe em tempo integral ou a mulher que trabalha no lar uma alienada. Infelizmente, as pessoas ainda têm a visão estigmatizada e antiga da rainha do lar dos anos 60", afirma. Um dos principais enganos é achar que uma dona de casa, hoje em dia, precisa esperar o marido retornar do trabalho para saber o que se passa no mundo. A internet é o antídoto básico contra a desinformação. Fora isso, há inúmeras possibilidades de se informar, como TV, cursos, grupos de estudo etc.
"Há uma espécie de patrulha social que considera a mãe em tempo integral ou a mulher que trabalha no lar uma alienada. Infelizmente, as pessoas ainda têm a visão estigmatizada e antiga da rainha do lar dos anos 60", afirma. Um dos principais enganos é achar que uma dona de casa, hoje em dia, precisa esperar o marido retornar do trabalho para saber o que se passa no mundo. A internet é o antídoto básico contra a desinformação. Fora isso, há inúmeras possibilidades de se informar, como TV, cursos, grupos de estudo etc.
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O fato de a mulher não investir na carreira e usar o salário do marido não a coloca como submissa a ele, segundo Cecília. "Ela se põe ao lado parceiro, pois esse arranjo foi combinado entre os dois. Ela fez uma escolha porque teve opções à disposição. Antigamente, não havia esse direito. O que as pessoas precisam entender de uma vez por todas é que se a mulher pode fazer o que quiser atualmente, isso inclui investir no modelo de vida que lhe parece o melhor", fala.
Para a pesquisadora e economista Tânia Fontenele, doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela UnB (Universidade de Brasília), de forma alguma as novas donas de casa podem ser consideradas um símbolo do retrocesso. "Pelo contrário. Elas são representantes da conquista plena dos direitos femininos. Até a Camille Paglia, uma das feministas mais radicais da história, já escreveu artigos dizendo que a escolha de ter uma vida doméstica não deve desqualificar uma mulher", afirma.
A psicóloga Cecília Troiano afirma, também, que o maior preconceito vem justamente por parte de outras mulheres e que existe um paradoxo: aquelas que se dividem entre os filhos e a carreira também são alvo de preconceitos e críticas, algumas muita duras. "Eu mesma, quando preparava o livro 'Vida de Equilibrista', fui questionada. Disseram que eu não tinha condições de escrever um livro sobre a relação entre mãe e filho, já que eu não passava muito tempo com o meu", conta.
Este tipo de comportamento das mulheres preconceituosas é uma hipocrisia para quem lutou anos e anos por direitos iguais. A mulher deve sim trabalhar e ganhar o seu próprio salário mas, se ela resolver ficar em casa cuidando da família, qual é o problema? Não vejo retrocesso nisso, vejo como uma escolha individual que cada uma tem e deve ser respeitada. Quem tanto procura por igualdade não deve apontar o dedo e criar um desconforto. A mulher evoluiu muito sim no contexto cultural, econômico e político, mas não há retrocesso maior que o preconceito.
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